O primeiro bife vegano impresso em 3D

Conhecida como manufatura aditiva, um processo em que objetos são criados mediante a deposição de materiais em camadas, a impressão 3D é uma tecnologia surpreendente e capaz de trazer uma série de possibilidades que vão além da impressão de maquetes e protótipos para fins decorativos ou didáticos. Há centenas de aplicações dessa tecnologia, algumas já disponíveis e outras que apenas despontam no horizonte.

A impressão de objetos sólidos relativamente simples para os campos da medicina, engenharia, arquitetura, moda, entre outros já é uma realidade.  Ademais, há o promissor campo da bioimpressão, que prometer ir além da impressão de próteses, tornando possível a impressão de órgãos humanos. Diante das possibilidades de construções por meio da impressão 3D, o bioengenheiro e pesquisador italiano Giuseppe Scionti, fundador da startup Nova Meat, apresentou em outubro de 2018 o que ele chamou de “o primeiro bife à base de vegetais impresso em 3D”.

” A ideia é relativamente simples: usando uma mistura de ingredientes composta de arroz, ervilhas e algas marinhas, foi criada uma pasta que serve como material a ser usado na impressão do bife vegano”

A ideia é relativamente simples: usando uma mistura de ingredientes composta de arroz, ervilhas e algas marinhas, foi criada uma pasta que serve como material a ser usado na impressão do bife vegano. Entretanto, segundo Scionti, para chegar ao resultado esperado, foi necessário realizar uma série de pesquisas científicas e de mercado. De acordo com o pesquisador, apesar de haver uma grande variedade de produtos veganos no mercado que “imitam” o sabor da carne, não há nenhum capaz de imitar a textura fibrosa de um pedaço de carne bovina ou peito de frango. Assim, usando um software de desenho auxiliado por computador, Scionti foi capaz de “desenhar” o bife incluindo estruturas tridimensionais complexas que possibilitaram a imitação da textura da carne. Depois foi criada uma mistura baseada em proteínas e corante, que, depois de impressa, resultou em uma substância de textura gelatinosa e avermelhada que se assemelha na aparência, no odor, no sabor e nas propriedades nutricionais a um bife de carne bovina. Também foi impresso um peito de frango à base de vegetais, com grande concentração de proteína, minerais, fibras e vitaminas.

” […] foi capaz de “desenhar” o bife incluindo estruturas tridimensionais complexas que possibilitaram a imitação da textura da carne”.

Apesar de haver diversas empresas dedicadas à pesquisa da produção de carne artificial, principalmente com base em células-tronco de animais cultivadas em laboratório, os métodos atuais são caros e a produção muito demorada. Por outro lado, o método proposto por Scionti permite imprimir um pedaço de carne de 100 gramas em aproximadamente 30 minutos que dispensa as carnes cultivadas em laboratório, sendo totalmente vegano.

De fato, a proposta de Scionti é extremamente promissora, ainda mais se considerarmos as vantagens da produção em larga escala e, principalmente, os impactos da pecuária no meio ambiente. Segundo o relatório “Exposição do Setor Financeiro ao Risco do Capital Natural”, apresentado em 2015 pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), para cada R$ 1 milhão de receita com pecuária extensiva, temos R$ 22 milhões de impacto ambiental. Isso significa que a atividade interfere negativamente no aumento do desmatamento e da emissão de gases que causam o efeito estufa, além de degradar o solo e consumir grandes quantidades de água. Assim, a carne impressa em 3D pode ser uma excelente alternativa diante do caráter insustentável da pecuária, além do seu potencial de contribuir para a luta contra a fome no mundo.


Texto publicado originalmente no Jornal de Jales, coluna Fatecnologia, no dia 14/04/2019.

About Jorge Luís Gregório

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