Dados públicos, tecnologia e combate à corrupção
Nos últimos anos, o Brasil tem avançado na transparência pública, segundo o conceito de dados abertos conectados. Hoje, milhões de dados sobre gastos do governo, contratos, transferências de recursos e vínculos institucionais estão disponíveis para qualquer cidadão consultar. Essas informações existem por força de lei e representam um princípio importante da democracia: o dinheiro público deve ser visível para a sociedade.
Entretanto, há um grande desafio: esses dados estão espalhados em muitos sistemas diferentes, propositalmente, eu acredito. Nesse sentido, mesmo sendo públicos, eles são naturalmente difíceis de entender. Portanto, para encontrar relações suspeitas ou padrões incomuns, seria necessário integrar e analisar enormes volumes de informação, o que é impossível de fazer de maneira manual. É aí que entra a tecnologia!
Diante deste desafio, Bruno Cesar, um desenvolvedor brasileiro criou uma ferramenta capaz de cruzar diferentes bases de dados públicas para mapear possíveis riscos financeiros envolvendo políticos e agentes públicos. Vale ressaltar que o sistema não acusa crimes, mas identifica padrões que podem indicar conflitos de interesse ou uso irregular de recursos. O sistema funciona de maneira semelhante aos mecanismos usados por bancos na detecção de fraudes: analisa relações, conexões e comportamentos suspeitos.
O mais interessante é que a ferramenta não usa dados secretos. Ela apenas organiza e conecta informações que já são públicas, mas que antes estavam dispersas. Ao fazer isso, transforma dados brutos, incompreensíveis, em algo compreensível — e potencialmente útil para jornalistas, órgãos de controle e cidadãos interessados em fiscalizar o uso do dinheiro público.
Essa ideia não é totalmente nova. Um dos exemplos mais conhecidos no Brasil foi a iniciativa Serenata de Amor, lançada alguns anos atrás. O projeto usou análise de dados para examinar gastos de parlamentares e identificar possíveis irregularidades no uso de verbas públicas. A iniciativa foi pioneira ao mostrar como a tecnologia poderia ajudar no controle social e na fiscalização do Estado. Entretanto, apesar do grande impacto, a Serenata de Amor não se tornou tão popular quanto poderia, visto que na época, o debate sobre Inteligência Artificial (IA) e análise de dados ainda não tinha a visibilidade atual. Hoje, com o grande interesse público em torno da IA e sua capacidade de gerar insights a partir de grandes volumes de dados, ferramentas desse tipo ganham muito mais atenção e compreensão, principalmente por parte da sociedade civil não especializada.
Essa mudança de percepção é importante, pois, se entendemos que dados públicos não são apenas registros burocráticos, eles podem tornar-se, de fato, instrumentos de controle democrático.
O uso inteligente de dados também pode transformar a forma como o Estado é fiscalizado. Em vez de depender apenas de denúncias ou investigações demoradas, é possível monitorar em tempo real o uso de recursos e identificar situações suspeitas com mais rapidez. Isso não substitui o trabalho de auditores humanos, mas ajuda a direcionar melhor a atenção das instituições responsáveis pelo controle e transparência.
Naturalmente, existem cuidados necessários. Ferramentas baseadas em dados precisam respeitar a privacidade das pessoas e evitar interpretações precipitadas, segundo a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Identificar um risco, ou movimentação suspeita não significa provar uma irregularidade ou um crime. Por isso, iniciativas desse tipo normalmente passam por análise jurídica antes de serem amplamente implementadas.
Mesmo assim, o avanço é significativo. Os agentes públicos, sejam políticos ou não, deveriam lançar um movimento para melhorar e institucionalizar ferramentas dessa natureza, vislumbrando um maior controle do dinheiro do pagador de impostos, indo em direção a um Estado mais transparente, responsável e, principalmente, auditável. Iniciativas como essa provam que a tecnologia pode ser disruptiva além dos modelos de negócio que visam essencialmente o lucro. Elas provam que a transparência formal, construída por muitas vezes por meio de acordos obscuros e projetos de leis tendenciosos, pode ser, de fato uma transparência real. Basta vontade política e honestidade, virtudes raras no alto escalão do legislativo, do judiciário e do executivo brasileiros.
Artigo publicado originalmente na coluna Fatecnologia, do Jornal “A Tribuna”, no dia 02/03/2026