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Como a Inteligência Artificial transformou minhas aulas

Como a Inteligência Artificial transformou minhas aulas

A aula expositiva é a forma mais tradicional de ensino. O professor apresenta o conteúdo de forma direta, explicando conceitos, ideias e, principalmente, contextualizando com o cenário atual. Independentemente do conceito explicado, é possível temperar a exposição com um bom storytelling, ou seja, contação de histórias, sejam elas reais ou fictícias.

Apesar de ser um excelente recurso para introduzir novos conceitos, a aula expositiva – sendo apenas expositiva – pode deixar o aluno passivo demais, limitar a interação na sala de aula e prejudicar a retenção do conteúdo, ainda mais quando não há prática. Por isso, sempre procuro provocar debates, fazer perguntas diretas e, quando possível, promover a aplicação imediata do conceito aprendido (na computação, a prática imediata é quase sempre possível!).

Um outro detalhe sobre as aulas expositivas é que o professor do ensino superior precisa disputar atenção com celulares, tablets, computadores e outros recursos eletrônicos. Infelizmente, na maioria das vezes, perdemos essa disputa.

É nesse cenário que as tecnologias de Inteligência Artificial (IA), principalmente as IAs generativas, entram na sala de aula, trazendo um discurso perigoso: o de que o professor não seria mais necessário. Afinal, se o aluno pode perguntar qualquer coisa ao ChatGPT e obter uma resposta imediata, qual seria o papel do docente?

O professor não é o detentor máximo do conhecimento. Ele é um mediador, um orientador, que na era da IA deve ensinar o aluno a pensar, questionar e dialogar com essas ferramentas de forma inteligente.

Discordo totalmente dessa visão. A IA generativa não substitui o professor; antes, ela potencializa quem sabe perguntar. E para saber perguntar, é preciso estudar muito. A qualidade da resposta de uma IA depende diretamente da qualidade da pergunta formulada e formular boas perguntas exige repertório, pensamento crítico e domínio do conteúdo. Nesse sentido, o professor continua sendo indispensável, não como detentor máximo do conhecimento, mas como mediador e mentor, ou seja, com um papel ainda mais estratégico: ensinar o aluno a pensar, questionar e dialogar com essas ferramentas de forma inteligente.

Foi pensando nisso que decidi transformar o “problema” em solução. Em vez de competir com os celulares e as IAs pela atenção dos alunos, resolvi convidá-los para o jogo. Promovi a seguinte dinâmica durante as aulas: durante a exposição, cada grupo de aluno abre uma ferramenta de IA diferente. Um grupo usa o ChatGPT, outro, o Gemini, outro, o Claude e assim por diante. A cada conceito apresentado, os alunos fazem perguntas à sua respectiva IA: “O que você acha disso?”, “Me dê um exemplo prático”, “Onde isso se aplica no mercado de trabalho?”, “Existe uma abordagem diferente?”.

O resultado, pelo menos nessas primeiras semanas, me surpreendeu! A aula expositiva, que antes era essencialmente um monólogo, ganhou vida. Os alunos passaram a interagir o tempo todo, comparando as respostas de cada IA, debatendo divergências, trazendo novos exemplos e até questionando as limitações das ferramentas.

A aula expositiva, que antes era essencialmente um monólogo, ganhou vida. Os alunos passaram a interagir o tempo todo, comparando as respostas de cada IA, debatendo divergências, trazendo novos exemplos e até questionando as limitações das ferramentas.

Cada IA responde de um jeito, com ênfases diferentes, exemplos distintos e, às vezes, até com informações conflitantes – o que gera discussões riquíssimas. A sala de aula se transformou em um ambiente de troca constante de ideias, com novas informações surgindo a todo momento, insights inesperados, conexões multidisciplinares e novas possibilidades de aplicação prática.

Mais do que dinamizar a aula, essa prática pode trazer ganhos pedagógicos importantes: o aluno deixa de ser um receptor passivo e passa a ser, de fato, o protagonista do próprio aprendizado. Ele pesquisa, questiona, compara e constrói conhecimento em tempo real, com o professor guiando o processo e garantindo a qualidade do que está sendo absorvido.

No fim das contas, a tecnologia amplifica quem já sabe ensinar. E o professor, mais do que nunca, precisa estar atualizado, preparado e disposto a reinventar suas práticas.


Artigo publicado originalmente na coluna Fatecnologia, do Jornal “A Tribuna”, no dia 19/14/2026

Jorge Luís Gregório

Professor e entusiasta de tecnologia, estudioso da cultura NERD e fã de quadrinhos, animes e games. Mais um pai de menino, casado com a mulher mais linda da galáxia e cristão convicto. Gosto de ler ficção científica e discutir tecnologia, filmes, seriados, teologia, filosofia e política. Quer falar sobre esses e diversos outros assuntos? Venha comigo!