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IA e atrofia cognitiva: quando terceirizamos o pensamento

IA e atrofia cognitiva: quando terceirizamos o pensamento

Antes da era do celular, eu tinha vários números de telefone guardados na cabeça. Ligar para um amigo, para o hospital ou para uma empresa era como um ritual: tirar o telefone fixo do gancho, discar número por número e falar. Nossa, me senti um fóssil agora!

Naquele tempo, decorar telefones fazia parte da minha rotina. Hoje, se alguém perguntar o número de um parente próximo, a resposta é: “Está salvo no celular”. Às vezes, não memorizamos nem o próprio número, pois conheço gente que o tem anotado numa etiqueta colada na capa do celular. De fato, após o boom dos smartphones, a quantidade de informações que administramos diariamente cresceu de maneira absurda. Contatos, senhas, compromissos, rotas, compras, mensagens e lembretes. Muita coisa para armazenar na cabeça, então, tivemos que terceirizar esse gerenciamento aos computadores e celulares.

O problema é que, quando uma ferramenta assume uma tarefa, deixamos de exercitar as habilidades que ela estimula. Se o celular guarda todos os contatos, memorizamos menos números. Se o GPS guia todos os caminhos, prestamos menos atenção nas ruas. E se a inteligência artificial (IA) começa a escrever, resumir, explicar, decidir e criar por nós, o que acontece com a nossa capacidade de pensar?

Nesse contexto, o MIT Media Lab publicou um estudo intitulado “Seu cérebro no ChatGPT”, que investigou os riscos de uma possível atrofia cognitiva causada pelo uso excessivo de IA. O estudo faz um importante alerta: depender demais dessas ferramentas pode reduzir o esforço mental necessário para aprender, argumentar e resolver problemas.

No ambiente acadêmico, esse risco é mais do que óbvio. Um estudante que usa IA para tirar dúvidas depois de tentar compreender um conteúdo está usando a tecnologia como um apoio. Mas aquele que copia uma resposta pronta sem ler, questionar ou revisar está apenas terceirizando o aprendizado. Nesse caso, a IA deixa de ser uma tutora e passa a funcionar como uma “muleta para quem sabe andar”.

Vivemos em uma sociedade extremamente dependente da ciência e da tecnologia, na qual quase ninguém sabe nada sobre ciência e tecnologia – Carl Sagan

No mundo corporativo, usar IA para revisar textos, organizar ideias ou acelerar tarefas repetitivas pode aumentar a produtividade. Entretanto, quando a ferramenta decide o que deve ser pensado, escrito ou defendido, o profissional corre o risco de virar apenas um operador de comandos. Produz muito, não necessariamente com qualidade e, certamente, compreende pouco.

A atrofia cognitiva nasce justamente dessas pequenas renúncias. Hoje a IA escreve aquele e-mail urgente. Amanhã resume o relatório que deve ser entregue até o almoço. Depois monta a estratégia de marketing. Quando percebemos, aceitamos cegamente as respostas sem ter o mínimo de compreensão do problema.

A solução não é parar de usar a IA. O desafio é usá-la com maturidade e responsabilidade: pensar antes de perguntar, tentar antes de pedir a resposta, ler antes de solicitar o resumo e revisar tudo antes de aceitar qualquer conteúdo gerado.

A tecnologia pode ampliar nossa inteligência, mas também pode atrofiá-la. Estamos usando IA para pensar melhor e produzir mais, ou apenas para pensar menos e sobrar mais tempo para o Tiktok? O saudoso astrônomo e divulgador científico Carl Sagan já havia feito um alerta: “Vivemos em uma sociedade extremamente dependente da ciência e da tecnologia, na qual quase ninguém sabe nada sobre ciência e tecnologia”. Portanto, conhecer esse “risco oculto” do uso excessivo e irresponsável da IA é imprescindível para que possamos usá-la para potencializar nossas habilidades, e não para comprometer nossas capacidades de pensar e tomar nossas próprias decisões.


Artigo publicado originalmente na coluna Fatecnologia, do Jornal “A Tribuna”, no dia 12/07/2026

Jorge Luís Gregório

Professor e entusiasta de tecnologia, estudioso da cultura NERD e fã de quadrinhos, animes e games. Mais um pai de menino, casado com a mulher mais linda da galáxia e cristão convicto. Gosto de ler ficção científica e discutir tecnologia, filmes, seriados, teologia, filosofia e política. Quer falar sobre esses e diversos outros assuntos? Venha comigo!