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Com a IA, qualquer pessoa pode ser um programador – não é bem assim!

Com a IA, qualquer pessoa pode ser um programador – não é bem assim!

Conversa de influencer superestimado: “Agora, com IA, qualquer pessoa pode programar”. Basta pedir, e, em segundos, surge um aplicativo inteiro. Parece mágica, porém, como toda boa mágica, a artimanha está naquilo que você não vê.

Sim, a inteligência artificial (IA) generativa facilitou o acesso a habilidades que levaríamos anos para dominar. Escrever um texto em outro idioma, analisar uma grande quantidade de dados, criar um site, gerar montagens fotográficas, criar vídeos e, claro, programar. É um avanço real, e quem nega isso, provavelmente, ainda está digitando numa máquina de escrever. O problema é outro. É a superficialidade do usuário ocasional, o não especialista, e, principalmente, o seu excesso de confiança.

Considere que a IA não entende contexto e intenção e, principalmente, não admite que não sabe: quando você deixa uma lacuna no prompt ou pedido, ela simplesmente preenche com o que parecer mais provável. Peça “um sistema para controlar o estoque da loja”, e sim, ela vai entregar um sistema, talvez não o da sua loja nem o de uma loja que, de fato, exista!

Sua natureza probabilística fará com que o resultado não seja exato, e sim o mais provável diante de um mar de possibilidades genéricas e bem longe da real necessidade do seu negócio.

É como contratar um estagiário incrivelmente brilhante, incansável e com zero vergonha de chutar. Ele nunca pergunta e nunca diz “não entendi”. Ele cria uma resposta genérica e segue em frente. E se você não sabe exatamente o que pediu, também não vai perceber o que recebeu.

É aí que o especialista volta à cena. Na programação, o “código que funciona” é só a ponta do iceberg. Debaixo d’água estão as perguntas que não foram realizadas. A primeira delas é a segurança. O aplicativo funciona, mas a senha dos clientes está guardada praticamente num post-it colado na geladeira. A IA não vai considerar esse aspecto porque você não o considerou.

Depois vem a arquitetura. Hoje o sistema suporta 10 usuários simultâneos; amanhã, com mil, desaba como um castelo de cartas em frente a um ventilador. Pensar em como as peças se encaixam e crescem é o principal trabalho do arquiteto de soluções, que, com certeza, já viu muitos sistemas evoluindo e, principalmente, caindo.

O profissional do século XXI é aquele que usa a IA para potencializar usas habilidades, e não suas limitações.

E há a parte que talvez seja a mais complexa: traduzir o negócio, ou seja, transformar o que o cliente realmente precisa em regras claras que o sistema realmente executa. Entre o que a empresa precisa e o que a máquina faz existe um enorme abismo. Alguém precisa construir uma ponte.

Nada disso é para desanimar quem está começando, muito pelo contrário: a IA é uma ferramenta fantástica nas mãos de quem sabe o que está fazendo e uma ótima professora para quem quer aprender. Entretanto, precisamos saber que, em sua essência, ela amplifica o que você já sabe, e, obviamente, o que você não sabe.

Um bom especialista faz as perguntas certas, desconfia da resposta perfeita e percebe quando a IA está, digamos, sendo criativa demais. Sem isso, você não está programando com IA. Está torcendo.

Portanto, programar com IA exige, conhecimento técnico, experiência e visão do contexto do negócio, além de competências em metodologias modernas de desenvolvimento de software. Sem isso, você não está construindo um produto, está apenas pedindo à máquina que invente.

E quase sempre o que ela inventa sai genérico, previsível, inseguro e descartável. O profissional do século XXI é aquele que usa a IA para potencializar usas habilidades, e não suas limitações.


Artigo publicado originalmente na coluna Fatecnologia, do Jornal “A Tribuna”, no dia 02/11/2026

Jorge Luís Gregório

Professor e entusiasta de tecnologia, estudioso da cultura NERD e fã de quadrinhos, animes e games. Mais um pai de menino, casado com a mulher mais linda da galáxia e cristão convicto. Gosto de ler ficção científica e discutir tecnologia, filmes, seriados, teologia, filosofia e política. Quer falar sobre esses e diversos outros assuntos? Venha comigo!